Arte Contemporânea Pós Mídias Digitais
Arte digital? Novas mídias? Nada disso. Na palestra que deu evento The Creators project de São Paulo, Giselle Beiguelman foi mais fundo na questão e tratou de temas mais filosóficos por trás dos trabalhos que considera mais interessantes hoje. Para Giselle, arte e tecnologia, novas mídias e arte digital são termos do passado, uma vez que (quase) toda a arte contemporânea já incorporou objetos e plataformas tecnológicas à sua linguagem.
“Parto de um pressuposto colocado por Giorgio Agambem, um filósofo italiano que tenho lido bastante e que talvez seja um dos leitores mais privilegiados de Foucault, meu filósofo favorito. Ele define a contemporaneidade não a partir do que é mais atual, mais trendy ou mais hype do momento. Isto talvez atenda bem às necessidades da publicidade, mas não serve para uma definição consistente. Agambem defende que a contemporaineidade é uma relação singular com o próprio tempo, que adere a ele ao mesmo tempo que toma certas distâncias.Neste contexto, a obra não deve ser entendida somente como processo, questão que marcou muito os anos 60. Muito menos como “produto”, visão que predominou durante o modernismo e continua pautando boa parte da produção artística mais convencional. A obra deve ser vista como um dispositivo, algo que articula as instituições, as relações de poder, os saberes em curso e as estéticas em transformação. Tudo aquilo que está a nossa volta constitui o dispositivo, que é de fato uma espécie de rede entre o dito e o não dito. Assim o dispositivo não só amalgama esses fatores como se coloca como uma estratégia de tensionamento da situação como um todo. Nem processo, nem produto, o dispositivo coloca uma estratégia em curso.”
Consciência planetária; Estratégias de codificação e Espacialidades Nômades foram alguns dos assuntos abordados pela especialista.
“Quero olhar para artistas que de fato têm trabalhado com questões que são transversais à vida coletiva contemporânea, dentro de uma geopolítica global. Não com cliques pela diminuição das emissões de CO2. Um dos projetos mais densos já realizados e que ainda é pouco conhecido no Brasil é o
Tantalum Memorial, feito pelo artista inglês Graham Harwood com dois de seus assistentes. Nesta obra, eles fizeram uma homenagem às pessoas que morreram na exploração de tantalita no Congo. A tantalita é uma mistura de coltâneo e um outro metal – muito utilizada na fabricação de baterias de celular – e é explorada na África por empresas que mantêm seus funcionários em regime de sub-escravidão – algo muito parecido com o que ocorre nas minas de carvão brasileiras. Não só são estas as condições de trabalho impostas, como os congoleses também enfrentam guerras, indiretamente provocadas pelas grandes empresas que visam aumentar suas reservas do metal. Pouca gente sabe que nossa mobilidade de certa forma patrocina as Coltum Wars, então Harwood construiu uma central telefônica gratuita que só recebe chamadas do Congo. Ele usa uma série de switches de antigas operadores telefônicas e cada vez que ligam para essa central para pedir socorro ou dar posicionamentos, os switches se mexem. Acompanhamos as transcodificações destas chamadas através de uma escultura cinética muito bonita que sabemos que só funcionará enquanto houverem tais chamadas de socorro.”
Mas nada disso pareceu tão intrigante quanto a conversão de nossos próprios corpos em mapas de informação – fenômeno concretizado desde o advento do projeto genoma.
“Hoje não somos mais um punhado de carne, osso e sangue. Mas sim um mapa de informações decodificáveis em computador. Frequentemente me pego pensando em como vou reagir quando achar um pedaço do meu DNA hackeado no google. Isso está bem próximo da gente, à medida em que esses sistemas ficam mais populares – você pode encomendar seu mapa pela internet e receber em casa – é provável que tenhamos de enfrentas as situações nas quais esses projetos nos obrigam a pensar.”
Ao exibir uma imagem da Edúnia, produto do cruzamento genético do artista Eduardo Kac com uma Petúnia, Giselle Beiguelman especulou sobre as novas formas de afetividade que deverão surgir à medida em que nos misturarmos mais com outras formas de vida. Qual será o espaço das Edúnias em nossos corações e sociedade? No final dos anos 60, o mestre Philip K. Dick já tinha cantado a bola de como poderia ser treta.
Giselle ainda comentou obras de artistas estrangeiros e brasileiros, mas recomendou que quem deseje se aprofundar mais no tema dê uma olhada nos slides da apresentação, que podem ser visto acima. Mais sobre o Tantalum Memorial.




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