As Esculturas Invisíveis De Claudio Bueno

Mariana Rezende 27 de out.

Se você ainda acredita que hackers são nerds que invadem computadores e roubam senhas, você precisa frequentar um pouco mais o nosso blog. “Art hack” é com certeza um dos temas mais recorrentes por aqui, e quer dizer algo como desconstrução de algo pré-estabelecido, a modificação dos seus princípios para que ele execute uma nova função. Por exemplo, o artista brasileiro Claudio Bueno, em muitos de seus trabalhos, hackeia smartphones e os transforma em instalações artísticas que subvertem as noções de espaço físico, como é o caso de Campo Minado e Redes Vestíveis.

Seu projeto mais recente, Le Chant des Sirènes [O Canto das Sereias] está em andamento como parte da sua residência em Québec, uma parceria entre o MIS e a La Chambre Blanche, uma instituição artística canadense. A ideia inicial de Bueno era, segundo conta, trabalhar no projeto Invisible Places, “que buscava recuperar a memória de algum lugar que tivesse desaparecido ou apagado por questões políticas ou especulação imobiliária, para então reconstruí-lo sonoramente através de memórias, arquivos e depoimentos. Eu convidaria o público a passear por um lugar que estaria instalado por meio de geolocalização num grande jardim ou parque da cidade – mas deste lugar só se ouviria o som.”

Uma coisa levou à outra e o artista acabou se deparando com novas histórias, e após comprar uma bicicleta, ele se pôs a “passear na margem do Rio Saint Laurent e imaginar mulheres que cantassem por seus maridos, filhos, amantes, clientes, que foram para a guerra e não voltaram. No pensamento sobre elas, descubro que oito destas mulheres foram para a guerra trabalhando com rádio (na comunicação do navio com a terra) e morreram no mar. Logo, pensei, se trabalhavam com a voz e morreram no mar, se tornaram sereias. É aí que chego na solução de instalar estas mulheres como um monumento na beira do rio, que estará aí permanentemente, como um monumento imaterial, mas acessível por um aplicativo mobile”, conta Claudio.

Nas palavras de Claudio:

O trabalho lida com um modo de hackear a história da cidade. Contar de um outro jeito sem precisar de muitas permissões. Seja um modo de contar mais poético ou que não encontre com a política tradicional de criação de monumentos. Em meus trabalhos, tenho me interessado pela confluência entre corpo, espaço e informação = sujeito que visita o trabalho no antigo porto de Québec; o rio muito bonito que se vê; e a informação recebida pelo dispositivo móvel.

Para desenvolver a trilha sonora da obra, o artista convidou o Conservatório de Québec, que criou para ele um canto das sereias, uma melodia perversa desenvolvida com base na letra escrita por amigos poetas de Claudio. “É um convite ao mergulho (Plongez Plongez Plongez), um modo de seduzir os homens a mergulharem e morrerem no mar”, finaliza.

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