Linha Do Tempo Do Design Gráfico Nacional Na Forma De Livro

por Fergs Heinzelmann 1 de fev.

Um livro super bacana chega ao mercado em fevereiro, contando a história da criação gráfica no Brasil desde 1808, com o surgimento dos primeiros jornais. O mapeamento dos dois séculos de história está presente em um material de 745 páginas, pesquisado, escrito e diagramado pela diretora de arte Elaine Ramos e pelo designer Chico Homem de Melo. De jornais, a cartazes, passando por capas de livros e discos, foram reunidas mais 1600 imagens coloridas que criam um relato visual da criação brasileira no design gráfico.

O livro foi chamado de Linha do Tempo do Design Gráfico no Brasil (Cosac Naify) e se propõe a contar, como o próprio nome sugere, os fatos mais marcantes da história do design gráfico nacional, na ordem cronológica de seu acontecimento. Conversamos com Chico Homem de Melo, responsável pelos textos e comentários presentes na publicação, que contou um pouco mais sobre este trabalho:

The Creators Project: Como o livro foi pensado e de onde a ideia para sua criação surgiu?
Chico Homem de Melo:
Foi uma ideia da Elaine, co-autora, que surgiu quando ela trabalhava na edição brasileira de um livro internacional de design, “História do Design Gráfico”, há uns 4 anos. Editando esse material ela reparou que o livro não fazia nenhuma menção ao Brasil. Ela pensou em acrescentar um capítulo à edição nacional deste livro, pontuando peças importantes do design brasileiro. Mas por conta de limitações de prazo da editora acabou desistindo da ideia temporariamente. Depois disso ela me contatou e bolamos a pesquisa, e o que seria um capitulo bem pequeno, ficou até maior que o livro sobre design mundial.

Sobre o processo criativo e de construção do material, ao longo dos 3 anos de trabalho trabalhamos muito intensamente. Eu destacaria dois grandes momento da produção. No primeiro, o levantamento das peças e bibliografia e a seleção do que entrou. Foram examinadas em torno de dez vezes o que entrou no material (estimo que para cada peça selecionada ao menos mais outras nove foram examinadas). No segundo momento nos dividimos, eu fiquei responsável por textos e a Elaine pelo design e coordenação editorial.

O processo criativo foi tão interessante que, ao final do livro acrescentamos um texto crônica do processo de trabalho, contando a historia da criação em detalhes, “abrindo a caixa preta”, relatando como aconteceu. Mas não se trata de metodologia, esse texto é quase um relato anti-metodológico.

Que momentos você considera mais relevantes na construção do design gráfico brasileiro? É possível falar de um marco inicial?
O marco inicial existe, quase podemos falar de uma data marcada para começar o design no Brasil: foi em 1808, com a chegada de Dom João VI. Até então Portugal proibia que materiais fossem impressos aqui, mas Dom João traz consigo uma máquina impressora no navio. Na sua chegada ele escreve o decreto autorizando a publicação no Brasil.

Quanto aos momentos mais marcantes, eles puderam ser percebidos depois que o material ficou pronto. Eu destacaria três pontos altos, dois deles são os anos 60 e 70, pela sua relação com a contemporaneidade. Nessas duas décadas já era possível perceber a base da cultural visual como a entendemos hoje. Além de serem dois momentos particularmente ricos da cultura brasileira em geral. E uma grande surpresa foram os anos 20, por apresentarem muita diversidade e qualidade impressionantes.

Posso falar também de um momento mais baixo, que foi a década de 40 por decorrência da guerra. Apesar de existirem trabalhos muito especiais separadamente, ao analisar o conjunto dessa década sentimos o impacto que a guerra teve na produção cultural mundial neste período.

De que maneira a tecnologia se relaciona com a história do design gráfico?
No começo do livro consta um texto que talvez seja uma primeira tentativa de reflexão mais apurada sobre o seu conteúdo, já que ele não foi pensado na forma de tese, não defende nenhuma teoria a respeito do seu conteúdo. Este texto de duas ou três páginas, eu chamei de “Macro periodização do design brasileiro” e nele identifico quatro grandes momentos em que o critério de diferenciação é justamente a tecnologia.

O primeiro chamei de “tipografia de chumbo”, que se baseava num esquema “Gutenberg puro”, no qual os tipos de chumbo e toda a tecnologia derivava dos tipos móveis de chumbo. No segundo, o advento do offset permite que a ilustração ganhe o centro do palco do Brasil até mais ou menos a década de 40. A cor passa a ter relevância e esse momento eu chamei de “Era da Ilustração”. O terceiro momento, “Era da fotografia” traz o uso da imagem fotográfica como tema central, e surge a tecnologia da impressão em meio tom. E o quarto e último seria a “Era Digital”, que é a que vivemos da década de 90 para cá. A tecnologia, pelo menos nesse primeiro balanço analítico, é a linha de corte dos períodos trabalhados.

No Brasil o que ganha mais destaque: imagens, o uso do texto ou a combinação dos dois? É possível falar de um estilo brasileiro de design?
Não tivemos uma preocupação em definir design no livro, mas acredito que a grosso modo podemos dizer que ele se trata da combinação destas duas coisas, textos e imagens. O que percebi fazendo o levantamento do material é que em alguns momentos a hegemonia era da imagem, como na era da ilustração, por exemplo, em que até o próprio texto era parte da ilustração.

Mas essa hegemonia do texto ou da imagem, flutua mais ao sabor do criador do que da linguagem ou período. Essa relação é encontrada ao longo dos 200 anos estudados, salvo bem no comecinho quando o design era só o texto. Mas em seguida surge a litografia e a fusão entre as duas coisas se dá de uma das maneiras mais fortes, criando coisas arrojadas já no século XIX.

Sobre o estilo brasileiro, o que posso dizer é que não era essa intenção buscar uma identidade nacional nesse trabalho. Não fomos atrás de algo que definisse a criação brasileira, mas ao mesmo tempo o livro é quase uma plataforma para que questões como essas sejam discutidas. Penso que este questionamento sobre a identidade brasileira poderia surgir a partir do livro, esta discussão seria um passo seguinte já que o material serve como um grande painel de 200 anos da cultura brasileira, embora essa não fosse nossa intenção inicial.

O que você acredita ser o futuro do design no Brasil?
Estamos no meio de um furacão com a revolução digital. Temos o privilégio e o peso de sermos a geração que está fazendo essa transição, mas ninguém tem muita certeza de onde isso vai dar. Nesse sentido de “para onde vamos?” o que considero curioso, e que mudou algumas crenças iniciais que eu tinha, é a percepção do que vem a ser a era da diversidade e da pluralidade. Estamos na era da diversidade, na qual existem muitos vetores se combinando, ou caminhando em direção própria e isso é o que dá a cara ao todo. Mas concluir a pesquisa do livro, percebi que essa ideia de diversidade permeou os dois séculos que nele constam, isso sempre existiu.

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