Scanner - Se Escondendo Sob A Superfície

Kathleen Flood 25 de out.

em julho conversamos com o compositor inglês de música eletrônica Robin Rimbaud, aka Scanner, sobre a trilha sonora de duas horas que ele compôs para a instalação Conductor do United Visual Artists (UVA) exposta em Lyon—a segunda versão da escultura de luz e som que estreou originalmente no palco principal do Coachella—logo antes da terceira interpretação, Room with a View (definida com uma configuração totalmente nova) viajar para São Paulo e Pequim.

Entrevistamos o artista mais uma vez em Nova York, onde o UVA o convidou para compor a trilha sonora para a mais recente interpretação do cubo de LED Origin. Ele nos falou sobre o desenvolvimento da obra, sua inspiração e desfiou a tonelada de projetos em que está trabalhando simultaneamente. Mesmo conhecendo a ética de trabalho super precisa e sobre-humana dele, ficamos impressionados com como ele ainda consegue gerenciar todos esses trabalhos paralelos.

The Creators Project: Você não estava no Nuits Blanche em Montreal no começo deste mês? Você estava colaborando com o UVA lá também?
Scanner:
Na verdade, não. Foi engraçado, estávamos lá ao mesmo tempo. Eu tinha uma instalação no distrito financeiro e eles tinham uma obra no centro comercial, então nos encontramos no topo de um prédio de 46 andares para dizer olá. Eles foram ver minha instalação e eu fui ver a deles, mas não trabalhamos juntos.

Que obra você exibiu lá?
Era uma instalação louca. Colaborei com dois amigos de Londres [Iain Forsyth e Jane Pollard] e ela era sobre vigilância, então tínhamos holofotes enormes seguindo as pessoas no distrito financeiro. Havia luzes estroboscópicas dentro dos bancos, fumaça e uma trilha sonora assustadora tipo CSI + Cloverfield, num cenário de fim de mundo, então as pessoas chegavam esperando uma equipe de filmagem no local. Era bastante apocalíptico e você tinha aquela sensação de que alguma coisa estava prestes a acontecer, mas você nunca sabia o quê. Foi extraordinário, os canadenses adoraram.

Soon.

Como a obra se chamava?
Ela se chamava Soon, como a antecipação de uma acontecimento. Em certo ponto, um cara canadense chegou perto da fonte que havia no meio do local e colocou as mãos pra cima. As pessoas ficaram impressionadas e algumas também colocaram as mãos pra cima e de repente era como se uma nave alienígena estivesse prestes a pousar e todo mundo estava lá, parado, umas 100 pessoas, com as mãos pra cima, encarando as luzes que se moviam. Foi uma loucura. Foi isso que fiz no Canadá.

Que loucura! Fale mais sobre trabalhar com o UVA.
Com o UVA fiz a obra de Lyon [Conductor] que depois foi para Pequim [Room with a View], como uma obra diferente. Mudamos o nome e mudamos a trilha sonora. Isso me deu muita liberdade em certo sentido.

Conductor; Foto: James Medcraft.

Room with a View; Foto: James Medcraft.

Queríamos usar algo que se conectasse a Nova York, então o que você ouviria, se ficasse por ali tempo suficiente, seria a voz de muitos nova-iorquinos. Dava para ouvir conversas de telefone de pessoas combinando de fazer ginástica ou levando o carro ao mecânico, só que essas conversas foram cortadas em milhões de partes. Então às vezes você consegue entender e outras vezes não, e algumas vezes as vozes se transformam em outra coisa, outro tipo de textura. O que você ouve são as conversas de telefone das pessoas de Nova York, mas transformadas pela tecnologia digital, e reagindo e respondendo à luz. As duas coisas conversam entre si, e há esse diálogo entre luz e som. Eu uso vozes em todas as obras porque é uma coisa muito humana. Sabe, você está olhando para uma obra muito digital e eu acho que é legal fazer algo que ressoe um tipo de humanidade por trás do trabalho. A obra do UVA é estritamente digital, o que é muito distópico, frio, limpo e contundente…

Muito geométrico.
Absolutamente. E matemático. Minhas trilhas sonoras geralmente são orgânicas e mais emocionais, por isso gosto de usar vozes. Nós todos temos uma relação com a voz.

Há outras línguas misturadas também, correto?
Sim. São conversas telefônicas roubadas basicamente. Eu hackeei conversas de celular—tecnicamente você poderia usar o termo “ilegal”, mas eu não ousaria usar esse termo. As pessoas estão conversando em francês, coreano, chinês, holandês, alemão, todos os tipos de sotaques.

Tudo está numa rede analógica de telefonia e gravei tudo ilegalmente. No meu arquivo tenho uma grande coleção de vozes, australianas, britânicas etc, e tenho esse arquivo chamado “vozes nova-iorquinas”. É ridículo. Quer dizer, são horas e horas de conversas típicas de celular e decidi usar isso numa obra. É engraçado, acho, vir aqui e reconhecer o sotaque de Nova York, ou ouvir uma mulher dizendo: “Esse cara tem uma sotaque tipo ‘Ricky Ricardo’.” É bizarro.

Origin; Foto: James Medcraft.

Viajo muito por causa do meu trabalho, e uma das coisas que gosto de me certificar é que as obras ressoem com o lugar onde estão. Sabe, se você sai de férias e vai para a Itália e depois para o Reino Unido, você tira fotos e as fotos vão mostrar que você estava na Itália, e depois estava no Reino Unido. A arquitetura é diferente. As pessoas se vestem diferentes, os penteados são diferentes, o formato dos rostos é diferente, elas falam línguas diferentes. Então gosto de realizar trabalhos que refletem a área. Se trabalho em Nova York é mais recompensador fazer algo que ecoe o local onde estou, é um pouco como tirar uma foto. O que você está ouvindo em grande parte do meu trabalho são reflexos desses lugares. Quando trabalho em países diferentes, eu frequentemente incorporo esses sons. Muitos dos projetos que fiz no passado têm essa conexão com as cidades onde trabalho.

E pra onde você vai agora?
Vou para Berlim. Farei uma exposição das minhas fotografias num museu. Depois vou para Paris, lá vou trabalhar com uma companhia de balé. Depois Buenos Aires no mês que vem, com um projeto insano com cem mil pessoas ao ar livre. Também estou escrevendo uma peça para uma orquestra e para uma cantora de ópera. E ainda estou trabalhando num projeto sobre o Joy Division.

Conte mais sobre isso!
Sou o diretor musical de um projeto chamado Live_Transmission, que estreia ano que vem no Reino Unido, tenho a benção das bandas e de Peter Saville, que desenhou todas as capas dos discos do Joy Division e do New Order. Estou escrevendo uma peça de 70 minutos inspirada na ideia de onde o Joy Division estaria hoje. O que eles estariam fazendo hoje em dia. Estou trabalhando com uma orquestra, uma banda de rock e uma fita original do Joy Division, então posso dizer que quero a voz de Ian Curtis nisso. Estou escrevendo toda a música e a partitura será feita por uma orquestra de Berlim e depois vamos para Londres para tocá-la ao vivo.

Joy Division: “Transmission”

Você vai excursionar com essa peça?
No momento temos esse show bastante ambicioso agendado e acho que depois iremos para Amsterdã, talvez para o Holland Festival. Com alguma sorte talvez possamos ir para os Estados Unidos.

Seria ótimo.
Joy Division é um grande nome cult. Temos um artista plástico trabalhando no projeto também, duas pessoas estão trabalhando nos efeitos visuais. É uma grande performance, como você pode imaginar. O Joy Division tem uma grande história. Na primeira hora do primeiro dia de venda, vendemos 300 ingressos e isso foi muito rock ‘n’ roll. E a apresentação será em fevereiro então estamos terminando tudo. Tenho essa tendência de trabalhar em muitos projetos ao mesmo tempo.

Semana que vem volto para Londres às 7 da manhã da segunda-feira e vou direto para o estúdio trabalhar na trilha sonora de um filme de terror chamado House Swap, que estreia ano que vem. Minha vida está sempre mudando de acordo com as coisas diferentes que faço. Sou muito hiperativo, como uma criança que quer fazer tudo de uma vez. Gosto muito disso na verdade, eu mudo as coisas rapidamente ao meu redor. Trabalho com estilistas, designers gráficos, artistas de animação ou no meu próprio trabalho. Estou fazendo curtas e etc. É legal. A única coisa que nunca faço, mesmo sendo músico, é lançar um CD. Eu lancei seis álbuns este ano, mas nunca lancei apenas um. Literalmente lancei seis álbuns este ano.

Paci Dalò e Scanner: The Maya Effect (2011)

É impressionante a quantidade de trabalho que você realiza.
É, eu sou assim. Não é sempre coisa boa. Eu faço meu melhor. Quero dizer, um ano atrás lancei um álbum de jazz com dois músicos de Nova York, um álbum propriamente de jazz. Ele teve bastante sucesso, comercial e criativo. Então fiz duas partituras de balé este ano e vou lançar um disco de pop com uma cantora britânica em algumas semanas, e isso é muito divertido, sabe?

Você prefere colaborar com artistas num meio específico, como artistas plásticos, ou alguém como o UVA ou trabalhar com companhias de balé?
Balé é uma coisa adorável. O que gosto é que não é sobre mim, é disso que gosto. A maneira como descrevo minha carreira é que estou sob a superfície. As pessoas não precisam saber quem eu sou, eu posso ser invisível e então posso emergir e fazer um projeto e desaparecer novamente. Para mim essa é a melhor recompensa. Quando trabalho com uma companhia de balé, a Dutch National Ballet por exemplo, 14 mil pessoas assistiram a essa apresentação. Eu sentei no meio do público e ninguém sabia quem eu era. Só preciso sair no final e fazer uma pequena reverência. Posso voltar para o hotel e ir para a cama, e não há essa coisa de ego inflado. Eu fico um pouco tímido, essa que é a verdade.

Dutch National Ballet: Labyrinth (2011)

Acho que o que eu realmente gosto é que me encontro numa posição de grande risco, então as pessoas vêm até mim quando não sabem exatamente o que querem. Então um cineasta pode me dizer: “Escrevi este filme e preciso de uma trilha sonora bem rápido, é isso que quero e ouvi dizer que você pode fazer”. E posso mesmo, sabe. Ou a Philips, os caras que inventaram a lâmpada e o CD player, trabalho muito com eles, desenvolvi o som para um relógio despertador. Agora, milhares de pessoas acordam com uma música minha todos os dias, o que é engraçado.

Jasper Morrison com Scanner para Punkt.

E por causa disso tenho trabalhado com Jasper Morrison, um designer britânico, e desenvolvi o som para um novo telefone, e então para um relógio despertador, um celular e um relógio de pulso. Gosto dessas coisas porque são apenas produtos, e você pode vir a ter um deles e nem saber que eu ajudei a desenvolver. Adoro esse tipo de coisa, quando você se infiltra em algo além da música, artes plásticas ou filmes—quando isso chega até pessoas que nunca foram aos seus shows. A psycho-opera de Karen O é um ótimo exemplo disso. Gosto de realizar trabalhos onde as pessoas que o experimentam provavelmente não iriam aos meus shows, não comprariam meu CD, mas vão se envolver e ter algum prazer, recompensa, desafio, distúrbio, excitação, seja lá o que for. Para mim, isso é a melhor coisa. Há uma ressonância, sabe. Não é só lançar uma CD, vender unidades, fazer shows.

…tocar ao vivo?
Sim! Eu toco ao vivo, mas às vezes isso é tão egocêntrico. Não sou tão bom nisso. Tento achar maneiras de me esconder. Colaborações são uma grande maneira de se esconder. Tem coisas suficientes acontecendo que me mantém estimulado, empolgado, e você sabe, sou muito disciplinado. Não trabalho à noite, nunca trabalho depois das 19 horas. Me recuso. E eu começo cedo, às 7 horas da manhã.

Sou uma pessoa à moda antiga em certo sentido. Muitas pessoas reclamam, e o que essas pessoas fazem é dizer: “Oh, esse artista tem mais sucesso que eu”, ou “Oh, essa pessoa tem uma exposição e eu queria ter uma exposição”. Muitas pessoas esquecem de olhar para si mesmas e ver onde elas estão comparadas a todas as outras pessoas, talvez atrás delas. Então me sinto muito grato todos os dias.

Comentários

blog comments powered by Disqus