Sedução Da Sereia: Entrevista Com Grimes
O Grimes, aka Clarice Boucher, produz poções mágicas para os ouvidos com música eletrônica. Suas ondulações parecem vocalmente improvisadas ainda que instrumentalmente calculadas, suas melodias são obscuras ainda que libertadoras, meditativas porém dançantes.
Ela angariou um pouco de atenção nos últimos dois anos: lançando dois álbuns gratuitamente, saindo em turnê com Lykke Li e assinando com a 4AD. Agora ela se prepara para o lançamento de seu quarto disco Visions, no dia 21 de fevereiro, pela 4AD e Arbutus Records—logo antes de começar suas turnês pela América do Norte e Europa.
Como artista plástica e cineasta, ela ilustra suas fascinantes paisagens sonoras em duas dimensões, compondo um deleite fascinante para os sentidos. Ela respondeu algumas de nossas perguntas sobre a gênese dos “pós-internet”, suas influências, próximas colaborações… e como exatamente ela faz o que faz. Não conseguimos uma resposta muito direta, mas isso já era de se esperar—um bom mágico nunca revela seus truques.
The Creators Project: Você liberou seus primeiros dois álbuns (Geidi Primes e Halfaxa) de graça online, o que é algo muito corajoso para um músico iniciante. Quais foram as razões por trás dessa decisão?
Grimes: Acredito que toda música devia ser gratuita—eu com certeza obtenho muita música de graça. Foi como se eu desse um presente. Eu certamente não esperava que alguém fosse comprá-los também (risos). Mas eu entendo as razões por trás da venda de música, e gosto de conseguir sobreviver fazendo algo que amo. E também foi uma grande jogada de marketing—se o disco é grátis, as pessoas vão ouvi-lo, e se ninguém te conhece, isso é ótimo.
O que podemos esperar do seu novo disco?
Odeio a ideia de que as expectativas podem mudar a maneira como algo é ouvido ou percebido, mas acho que pode-se dizer que é um disco de pop de vanguarda. Algo como o futuro do pop. É hiperemocional—emoções hiper condensadas, não há um minuto sem isso. Ele arqueia. Começando despreocupado, extático—mantendo o efeito mas liricamente se tornando mais obscuro. As primeiras músicas são realmente imbuídas do sentimento de como é belo criar música. Conforme continua vai se tornando mais intenso, e agressivo, e estranho, menos evidentemente pop. Para mim ele culmina em “Be A Body” e então começa a se desatar. Termina de maneira triste, a conclusão é a realização da solidão.
“Genesis” do álbum Visions (2012)
O seu som é descrito como “pós-internet”. Você concorda com isso e se sim, o que isso significa para sua música?
Grimes pode ser descrito como “pós-internet” porque meu cérebro é biologicamente diferente do cérebro das pessoas que não foram expostas a internet quando adolescentes. Eu (e 99% dos meus colegas) temos nossas vias neurais esculpidas pelo uso da internet como uma habilidade prioritária que também nos permite fluência e adaptabilidade (que é inerente do nosso entendimento básico da internet), isso está levando ao que eu considero o começo da renascença musical.
Para mim, pós-internet se refere a um grupo de pessoas que são híbridos psicológicos de seus egos da internet (meu Twitter, meu qualquer coisa assim). Nós vagamos pelo ciber universo, absorvendo o quanto for possível. Para a música, isso significa que o potencial é infinito. Às vezes sinto uma perda simplesmente porque fico sobrecarregada com a beleza e a cultura do passado que surge através da internet, e encontrando coisas de outras eras e culturas que emergiram antes. É tipo… uma feira mundial de toda a arte (tenho certeza que uma vasta proporção nunca emergirá por várias razões, mas você entende o que quero dizer). Isso é ótimo pra gente—porque é responsabilidade dos músicos contemporâneos continuar o legado da humanidade fazendo o melhor de si, especialmente porque podemos não ter muito mais tempo sobrando.
Quais são seus outros gêneros favoritos ou influências musicais?
De todos os tempos ou atuais? Hildegard von Bingen, Mariah Carey, Marilyn Manson, Tool, OutKast, Burial, Brandy (acabei de assistir “Have You Ever” sincronizado com um vídeo do interior de um avião onde todo mundo está com a cabeça abaixada para se proteger de um possível acidente, mas com a música parecia que todo mundo estava tendo uma crise emocional. Foi bem engraçado), Aqua, Enya, Nine Inch Nails e Miharu Koshi.
Fale um pouco sobre seu processo criativo musical. O que acontece quando você escreve/mixa/produz/grava um disco do Grimes?
Eu faço a mixagem com meu empresário Sebastian Cowan no La Brique Studio Space. O processo de gravação é bem intenso. Não sei se consigo explicar tudo agora.
Capa do Geidi Primes (2010)

Qual foi o sample ou ferramenta mais estranhos que você já usou numa música?
Minha respiração? Eu gritando com o meu gato?
Se dinheiro não fosse problema, há algum instrumento ou efeito que você gostaria de incorporar no seu kit de ferramentas musicais?
Um coro de meninos.
Quem são os músicos que estão fazendo a coisa certa no momento e por quê?
Purity Ring, Blue Hawaii, Grimes, Mozart’s Sister: quatro garotas que podem cantar e escrever, apoiadas pelo futuro electro tudo—um movimento de beleza e estilo.
Você também é artista plástica e dirigiu seu vídeo clipe “Vanessa”. Você tem um meio de se expressar favorito ou todos estão interligados?
Direção foi uma coisa que fiz por necessidade mas que acabou sendo incrível. Comecei fazendo isso porque precisava de mais controle e acabou sendo uma coisa que pode rivalizar com o meu amor pela música, simplesmente porque é o passo final para realmente realizar uma obra musical. Eu sinto como se vídeo e música fossem duas metades de um ovo… mas o vídeo clipe é o ovo inteiro. Um filme tem uma trilha sonora, claro, e você também pode ouvir a música enquanto caminha ou algo assim, mas fazer música e uma realidade construída que existe exclusivamente com essa música é uma obra de arte inacreditável pra mim. Significa tanto poder dar vida às minhas músicas. Parece um luxo tão insano e um sonho. Eu gostei muito disso.
Você colaborou com Chris d’Eon anteriormente (em Darkbloom) e o Pitchfork disse que você pretende fazer uma colaboração com o seu irmão este ano. Você tem já tem alguma parceria agendada para 2012 ou algum colaborador dos sonhos?
Já terminei minha faixa em colaboração com o meu irmão e mais outros dois—uma com Magical Clouds e uma com Blood Diamonds. Estou tentando conseguir uma parceria com o Burial, mas obviamente não vai rolar (risos). Visualmente eu tenho colaborado com Emily Kai Bock, Evan Prosofsky, John Londono, Melissa Matos, Nic Brown (do videomarsh) só para citar alguns.




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