The Creators Project: Como surgiu seu interesse pela moda?
Jum Nakao:
Sempre tive interesse em trabalhar com interfaces, fazer e criar
meios de interferir na realidade, no cotidiano. Inicialmente imaginei que o meu
caminho seria a tecnologia. Então, já na adolescência eu queria trabalhar com
essas novas mídias, com suportes que interagissem com as pessoas. Daí
procurei um colegial técnico em eletrônica. Decidi terminar o curso e comecei,
já naquela época, a pensar em alguma interface, em alguma forma de vestir
as pessoas e com isso poder estabelecer diálogos. Percebi o quanto a roupa
já era uma realidade muito mais concreta e do dia a dia das pessoas do que a
tecnologia. Vi o quanto a roupa servia como essa interface entre as pessoas e o
mundo. É aquilo que está entre a pele das pessoas e o que os outros enxergam.
Decidi procurar compreender melhor como se constrói a roupa, qual a relação
entre a linha, o traçado, o molde e o corpo humano. Trabalhei como alfaiate
durante dois anos, fazendo roupa para vários tipos de corpos e compreendendo
que cada corpo tem um traçado, cada defeito tem um conserto, uma solução,
um processo que você consegue, através de linhas mais orgânicas, linhas mais
retas, compensar e criar novas formas. E depois, querendo entender um pouco
mais de moda, fui estudar os complementos, os acessórios, e fui trabalhar como
joalheiro.

Até hoje falam muito da sua coleção de papel. Fale um pouco sobre
ela. O processo de fabricação deve ter sido extremamente complexo.

Esse foi um projeto feito para o São Paulo Fashion Week, para a coleção de
verão de 2005. Foi um trabalho extremamente elaborado. Levou 700 horas para
fazermos aquelas roupas, quase uma tonelada de papel… E aquilo tudo durou
sete minutos e, no final, foi tudo rasgado na passarela. Usamos papel vegetal
com diversos recursos para torná-lo algo sublime, fantástico, feito em gravações
de baixo e alto relevo, rendas e cortes manuais, origamis, cortes a laser. A ideia
do projeto era mostrar que não importa do que é feito. As pessoas olham e
acham que tudo tem que ser feito em alta definição, tudo tem que ser feito em
ouro, tudo tem que ser feito em latão, sei lá, em seda, não importa. Não importa
como é feito e por que é feito. Tem que mostrar para as pessoas que muitas
vezes seus valores necessitam ser revistos, que a materialidade pouco importa.
O que importa é o que a materialidade traz por detrás dela. Tanto é que a gente
destrói tudo para mostrar que existe algo muito mais importante, algo muito mais
permanente do que aquilo que as pessoas olham e valorizam à primeira vista.

Você pode contar para a gente o que você está fazendo agora e quais são seus
projetos futuros?

Bom, eu tenho me dedicado muito à área acadêmica, em formar novos estilistas,
capacitar comunidades. Tenho realizado muitas oficinas, tanto no Brasil quanto
no exterior, feito palestras… Isso desde 2004. Ou seja, faz seis anos que me
dedico a compartilhar conhecimento e a formar novas pessoas. Acredito que,
se você quer que mudanças aconteçam, você tem que mudar as pessoas,
você tem que formar pessoas, você tem que transformar pessoas em pessoas
melhores para que elas façam parte dessa construção de um mundo melhor.

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